Foi em uma manhã de domingo que tudo aconteceu. Como de costume ela estava lá, em pé na esquina, quentando-se no sol, do lado oposto ao ponto de ônibus. Duas motos subiram a rua; uma Ninja com dois rapazes e uma Harley com apenas um. Estavam entorpecidos por álcool e cocaína, que usaram durante a noite toda de sábado. Eram os estereótipos perfeitos da figura “filhinho de papai soberbo”. Pararam na frente daquela figura nigérrima e o garupa da Ninja desceu. Chamou a mulher de “negra macumbeira do inferno”, deu-lhe uma rasteira que a levou ao chão e cuspiu sobre ela. Os outros dois que continuavam montados em sua ignorância, nem desceram das motos e também cuspiram sobre ela. O garupa também montou em sua ignorância e os três arrancaram dali.No cruzamento foram surpreendidos por um caminhão Mercedez - desses antigos - que parou bem no meio da rua. Acabaram se chocando com o tal caminhão. Nada grave, mas as motos ficaram danificadas de maneira que não puderam sair dali. Quiseram então puxar briga com o motorista, mas respeitaram aquela figura bruta e sistemática.
A polícia foi chamada, por eles mesmos, para registrar a ocorrência. Afinal, aquele caminhão velho não devia estar ali. Um pequeno aglomerado de pessoas se juntou, tanto para levantar a negra do chão, como para acompanhar a ocorrência de trânsito.
Os três rapazes, nitidamente exaltados, contavam aos policiais que aquele caminhão, simplesmente, atravessou a rua e parou no cruzamento, que ele estava errado e precisava arcar com o prejuízo. Os policiais tentavam registrar a ocorrência, mas os rapazes estavam muito nervosos e confusos. Eles então disseram: “podem perguntar o que aconteceu, todo mundo aqui viu!”. Mas as pessoas diziam não ter visto absolutamente nada, a não ser os rapazes humilhando a negra.
Apesar da gravidade dos fatos, foram condenados apenas a prestar serviço comunitário em uma favela.
Alguns meses depois, apresentaram-se à ONG que assistia menores em situação de risco na favela. Foram recebidos por um rapaz que ensinava os primeiros acordes musicais àlgumas crianças. Sem saber que tipo de trabalho comunitário os rapazes poderiam fazer, pediu que eles esperassem naquela sala, pois iria consultar o presidente da ONG para saber em que tipo de trabalho podia encaixá-los.
Enquanto aguardavam, os rapazes liam os murais das paredes que contavam a história daquele lugar. Foi fundado por Fela Abachia, que nasceu em uma comunidade pobre da Nigéria. O pai, após fazer o extirpamento do clitóris de Fela, quando ela ainda tinha 9 anos de idade, com um canivete - situação que fez com que ela tivesse passado perto da morte por infecção – deu a filha em casamento a um comerciante em troca de um pequeno dote. Fela, então com 10 anos, era agredida e explorada pelo homem. Por ainda não ter oficializado o matrimônio, uma Comissão Internacional de Direitos Humanos conseguiu levá-la para um abrigo provisório. Adotada por um casal de americanos, Fela estudou, graduou-se e tornou-se Doutora em Sociologia e Antropologia. Em uma viagem ao Brasil, conheceu a Favela das Pedras, e fundou aquela ONG que ensinava música e informática à crianças da comunidade.
Os três rapazes, todos estudantes de direito, impressionados com a história de vida de Fela Abachia, ficaram ansiosos para conhecer uma pessoa tão sofrida e tão admirável em sua capacidade de superação. A porta abriu, e Fela, a “negra macumbeira do inferno” veio recebê-los.
6 comentários:
Muiiito bom!
Vá em frente!!!
Valeu! Continuo tentando.
Continuando...
Gosto muito do estilo "conto"...e para falar a verdade, nem sabia que gostava tanto...foi lendo Quiroga que me apaixonei definitivamente...além é claro dos contos da Lygia Fagundes Telles, que você me indicou.
Essa forma de escrever prende o leitor..a gente se empolga e se envolve muito rápido na história...e num instante...tudo está acabado...
poxa Maí muito bom o texto... é seu? é verídico?
Muito bom o blog! Está de parabéeeeens!!!!
ah mais uma coisinha... essa descrição da negra sentada quentando o sol no domingo de manhã, com lenço na cabeça, me fez lembrar muiiiito da Dita =)
Ela ficava bem assim... e eu era bem pequena, mas nao esqueço...
bju
Então... esse é o primeiro conto que publico.
Várias pessoas me perguntaram se era uma história verídica.
Não, não é uma reportagem. É pura ficção mesmo.
Ficção na forma de escrever, porque infelizmente coisas assim ainda acontecem... e são bem reais!
Postar um comentário