sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Povão


Eu fico meio deslumbrada aos domingos quando assisto a dois programas de televisão: um é o Sr. Brasil, que passa na TV Cultura, e o outro é o Esquenta que passa na Globo.  Ambos mostram a cultura brasileira do povão. Um de uma maneira mais elitizada e o outro de uma forma mais escrachada, mas ambos mostram a cultura musical da grande maioria da população, o que a pequena elite chama de povão, seja na roça ou na cidade, ontem ou hoje.


 O Sr. Brasil retrata a cultura popular de anos atrás, então tornou-se meio “cult”, meio “chic”, mas não deixa de ser a cultura musical do povão de anos atrás. O Esquenta retrata a cultura musical do povão nos dias de hoje, valoriza aquilo que nós, os hipócritas musicais, desprezamos: o funk, o pagode, enfim, as coisas que os pobres gostam e ouvem.

Isso me fez pensar em Noel Rosa. O sujeito da década de trinta era de classe média, mas vivia enfronhado na favela, vivendo a cultura que rolava no morro naquele tempo.  Quando Noel cantava
               
 “Agora vou mudar minha conduta,     
eu vou pra luta pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta,
Pra poder me reabilitar
Pois esta vida não esta sopa e eu pergunto:
Com que roupa?
Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou?”

será que era tão diferente e tão mais genial do que quando Michel Teló canta

“Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego
Ai ai se eu te pego...”   ? 




Dias atrás, o Esquenta rolando na TV, então uma pessoa me disse:

_ Eu gostava da Regina Casé, mas não concordo com esta forma de programa de televisão popular que mostra a favela como sendo uma coisa boa. Os favelados vivem à margem da sociedade, são malandros e aproveitadores, querem viver à custa dos outros e do governo.

Neste momento, o plantão da Globo informou  a triste notícia de um incêndio na favela. É o segundo que vejo acontecer nesta época próxima do Natal. Este tipo de coisa me choca, porque os barracos de madeirite e papelão se incendeiam com facilidade e rapidamente consomem o pouco que é o tudo para algumas famílias. 

A pessoa então me disse:

_ Bobagem se abalar com isso! Eles fazem isso de propósito. Essa gente coloca fogo em suas próprias casas, principalmente nesta época do ano, para tocar o sentimento das pessoas e sensibilizar os governantes para que, acelerem a entrega de casas populares prontas, assentando estas famílias que nem estão inscritas em programas de habitação, às quais, depois de entregues, são vendidas, e estas famílias voltam para os mesmos lugares e constroem novos barracos formando novas favelas.

Sei que isso realmente acontece, que gente mal intencionada existe em tudo quanto é lugar. Só não se pode esquecer que este é um problema cultural, e como tal, ligado à ignorância de um povo pobre e sem instrução. Não se pode cobrar atitudes éticas e coerentes de gente que não teve oportunidade de estudar nada, muito menos pensar o significado da palavra ética.

Será que o povo da favela é tão diferente do povo da cidade? Dinheiro não é sinônimo de cultura, e gente sem ética existe em tudo quanto é lugar. Cultura não é só o conhecimento intelectual, também é o conjunto de costumes de um povo. E nada é mais bonito do que admirar seu próprio povo e ser solidário com ele.